Os sonhos põem-nos em relação com um mundo misterioso
ou um futuro que quase sempre permanece desconhecido para nós
Os sonhos são o cordão umbilical que nos liga a um mundo arcaico, um futuro que pulsa no escuro, esperando para ser vivido. Carl Jung já nos advertia: enquanto você não tornar o inconsciente consciente, ele guiará sua vida e você o chamará de destino.
Dentro de cada um de nós, habita um Estrangeiro. Ele não usa nossas máscaras sociais, não se importa com nossa ética diurna e nos enxerga com uma clareza aterrorizante. Ele é o diretor de um teatro onde somos, ao mesmo tempo, o protagonista e o público. Voltar ao mundo dos sonhos não é apenas dormir; é acender uma lanterna em uma catedral abandonada e descobrir que as estátuas se movem quando não estamos olhando.
O cenário do meu último mergulho era o fim de tudo.
A cidade desmoronava sob um céu sem estrelas, sufocada por uma neblina que parecia feita de cinzas e memórias esquecidas. O frio não estava no ar, estava dentro dos meus ossos. Subi ao topo de um edifício ancestral, cujas paredes suavam uma solidão palpável. Eu buscava alguém. Qualquer um.
Ao entrar no apartamento da cobertura, o silêncio era interrompido apenas pelo estalar das chamas que lambiam o horizonte. Sobre as mesas, pilhas de papéis, mapas e diagramas obsessivos. Eu li a palavra. Estava em todo lugar, escrita com uma caligrafia que me parecia estranhamente familiar: MONDAS.
O nome vibrava na minha mente como um sino fúnebre. Eu não sabia o que era Mondas, mas minha alma já pedia perdão por pertencer a esse nome.
— Mondas nunca irá te perdoar — a voz emergiu das sombras, arrastada, carregada de um peso secular. — Especialmente agora, depois de descobrir que você se conectou a ele há muito tempo.
Meu corpo gelou, mas minha voz saiu imponente, uma armadura de negação: — Eu o quê? Você está louco! Apareça! Se tiver coragem, mostre o rosto ou...
Avancei em direção à penumbra, onde apenas o brilho de sapatos lustrosos refletia a luz do incêndio lá fora. Tentei um golpe, um tapa que cortasse aquela audácia, mas ele foi mais rápido. O aperto no meu pulso foi real. Senti o calor da pele dele, a pressão dos tendões, uma força que nenhum sonho deveria ter o direito de simular.
— Você cortaria minha língua e arrancaria meus olhos? — ele sussurrou, a voz agora perigosamente perto do meu ouvido. — Creio que não seria tão autodestrutiva. E eu... eu certamente não seria.
— Me solta! — gritei, meu coração martelando contra as costelas como um animal enjaulado. — O que você quer?
Ele torceu meu braço com uma delicadeza cruel, empurrando-me em direção à luz que vinha da janela. Um sorriso irônico dançava em seus lábios antes mesmo de eu ver seus olhos.
— Eu adoro atuar — ele disse, a ironia escorrendo como veneno. — E você, Ellen? Ainda gosta de atuar para o mundo?
Quando a luz finalmente revelou seu rosto, o chão sob meus pés pareceu evaporar. Eu o conhecia. Eu o conhecia melhor do que a mim mesma.
— Atuar é necessário, principalmente quando se é o inconsciente de alguém — ele fez uma reverência teatral, os olhos brilhando com uma lucidez maníaca. — Olá, Ellen. Eu sou Sam Tyler. E estou muito preocupado com o meu futuro... digo, com o nosso futuro. Mas chega de drama! Vem, vamos dançar? Me dá um beijinho...
Ali, frente a frente com Sam, a arquitetura da minha lógica ruiu. As linhas temporais se enroscaram como fios de uma teia arrebentada. Eu não sabia mais onde terminava a mulher e onde começava o monstro, pois ele não estava mais apenas me observando.
Sam Tyler agora estava no controle das nossas emoções.


